No coração do Sul de Minas Gerais, sob as águas serenas do Lago de Furnas, escondem-se histórias de comunidades que, há décadas, foram parcialmente submersas com a construção de uma usina hidrelétrica. Este cenário oculto tem atraído a curiosidade de mergulhadores e entusiastas da história, que, ao longo dos anos, desvelaram estruturas preservadas das cidades que ali existiam.
Descobertas Submersas
A empreitada de explorar este mundo subaquático deve muito ao mergulhador profissional Roberto Obvioslo. Desde jovem, Roberto foi impactado pelas transformações que a construção do lago trouxe à região. Movido pela fascinação sobre o destino das áreas inundadas, ele iniciou, há cerca de uma década, uma série de expedições com o intuito de mapear e documentar as estruturas submersas da antiga São José da Barra.
Roberto, com a ajuda de relatos de antigos moradores, começou a identificar ruínas e vestígios das comunidades de outrora. A persistente exploração culminou na descoberta de uma rua inteira preservada, marcando um ponto alto de sua incursão submarina. “A gente encontrou uma rua completa. A partir daí, começamos a mapear tudo. Marcávamos os pontos, mas sem explorar de imediato”, conta o mergulhador.
A Vida Sob as Águas
Nessas expedições foram reveladas cenas cotidianas das antigas comunidades, imortalizadas pelas águas. Fogões a lenha, pisos de casas, e até mesmo estruturas inteiras foram encontradas, com algumas casas apresentando apenas os telhados parcialmente soterrados. Tudo é registrado em fotografias, respeitando-se o local como um museu submerso, intocado.
Entre os achados, uma ponte perfeitamente preservada emergiu durante a busca por um veículo perdido no lago. Outras descobertas incluem uma escuna, veículos e diversos equipamentos que caíram no lago ao longo dos anos.
Impactos da Inundação
O Lago de Furnas tem suas origens no ano de 1963, quando a construção da usina trouxe mudanças significativas ao cotidiano dos moradores locais. Abrão Alves Andrade, um dos habitantes da São José da Barra, relembra o impacto do alagamento, que obrigou famílias a deixarem suas casas. “Meu pai me disse: ‘arreia o cavalo e vai na Barra Velha avisar o povo que a água está aí’”, relatou.
A retirada foi acelerada, com muitos sendo auxiliados por lanchas, balsas e, em alguns casos, helicópteros. O padre José Ronaldo Rocha, que presenciou a remoção aos 12 anos, compartilha memórias de construções sendo demolidas para evitar riscos.
O Lado Positivo da Transformação
Apesar das perdas iniciais, a formação do Lago de Furnas trouxe desenvolvimento. A região, hoje, é marcada pelo avançado da agricultura e pelo impulso do turismo. José Dalton Barbosa, que viveu a transição, indica que as transformações foram positivas, apesar do desafiante começo. “Hoje as terras são muito mais produtivas”, afirma.
O padre José Ronaldo também vê o progresso alcançado pelas dificuldades enfrentadas. “É um povo que resistiu para reconstruir a cidade”, ele conclui, refletindo a resiliência distintiva dos moradores locais.
Enquanto o Lago de Furnas continua a fornecer recursos energéticos e impulsionar a economia, as histórias seladas sob suas águas oferecem um testemunho do passado, resgatado por aqueles que se aventuram a explorar suas profundezas.